A fim de dar largas a seu extremo romantismo, o grande Friedrich Schiller não hesitou em ir abertamente contra o fato histórico ou demonizar a rainha inglesa protestante para poder santificar a escocesa católica. Em cinco atos de poesia, que Manuel Bandeira traduziu com toda a adequada e apaixonada verbosidade, Schiller constrói um universo de tramas, traições, amor e ódio, confinado a um número reduzido de personagens no espetáculo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, uma ousadia nestes dias que correm, a terceira montagem profissional do texto no país.
Como em toda a dramaturgia romântica, "Maria Stuart" tem, por assim dizer, heroína e vilã, e é escrita com a clara intenção de defender a primeira e condenar a segunda, fazer a primeira causar paixões e adorações em todos que venham a ter contato $ela, enquanto só o poder da segunda a cerca de relutantes servidores.
Porém, esquecendo-se que se fala de Mary Stuart e Elizabeth I, o drama funciona nos termos emocionais da época em que foi escrito. No caso em pauta, alguns cortes foram feitos, e só pode ter sido em função destes cortes que, infelizmente, alguns "vocês" repentinamente apareceram entre os "vós" escritos por Manuel Bandeira.
A encenação é austera, uma pesada cortina ao fundo, um grande praticável, um trono e um caixote compondo a cenografia de Helio Eichbauer, perfeitamente satisfatória se fosse habitada por figurinos adequados. Infelizmente, Marcelo Pies conflita abertamente com o texto nos figurinos das duas rainhas (a não ser pelo final de Maria), que aparecem, como todo o resto do elenco, com umas roupas que não são de época alguma, e sem qualquer encanto em si mesmas, cujo vermelho só serve para servir um suposto $na corte de Elizabeth, e tristeza e pureza em Maria com o uso de preto e branco. São variados os talhos dos figurinos masculinos, a maior parte feia e sem sentido.
Direção deixa sem variedade movimentos e falas
A luz de Tomás Ribas é muito boa, e a trilha de Marcos Ribas Farias tem o clima certo para Schiller. A direção de Antonio Gilberto parece um tanto perdida: a protagonista absoluta se move com liberdade e variedade, mas todo o resto do elenco é preso a um mínimo de gestos e marcas, sendo Elizabeth a mais prejudicada, marcada com uma espécie de dureza militar.
A falta de variedade é sentida igualmente nas falas, que têm quase todas os mesmos tom e ritmo, impedindo os personagens de chegarem a ter alguma característica própria.
Julia Lemmertz faz um lindo trabalho (exagera um pouquinho em seu momento de triunfo), mas o resto do elenco está em outro nível. A própria Clarice Niskier fica pouco satisfatória como Elizabeth, mecanizada e fria. André Corrêa faz um Leicester bastante falso; Mario Borges está excessivamente neutro (e difícil de se entender) como Burgleigh; Amélia Bittencourt, muito falsa, como a ama; Clemente Viscaíno e Henrique Pagnoncelli, apenas modestos como os principais carcereiros de Maria. Renato Linhares e Pedro Osório fazem modestos esforços, e de modo geral só Ednei Giovenazzi tem a oportunidade de se individualizar, nos excessivos rompantes religiosos da última cena de Maria.
A montagem é cuidada, e claramente busca respeitar o autor e o tradutor; porém só Julia Lemmertz atinge o alto nível que o texto exige. De qualquer forma, é um esforço mais que louvável.


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